Ofélia assiste ao rapto de Europa

Ofélia assiste ao rapto de Europa

vídeo, 13min. Apropriação das imagens do filme O Eclipse de Michelangelo Antonioni sobrepostas pelo texto do conto Ofélia assiste ao rapto de Europa. Exposição Primeiro Diário de Viagem, 2008. Casa da Dona Yayá, CPC-USP.

O conto faz parte da dissertação de mestrado Primeiro diário de viagem, defendido no PPGAV – ECA – USP, em 2009.

Certa vez um homem foi trancado em um hospício por ter se banhado nu na Baía da Guanabara. Uma mulher que gostaria de estar em outro lugar, Paris talvez, também poderia ser internada numa casa de loucos.

Entrevista Um.

– Sabe por que você está aqui?

(longo silêncio)

– Você não queria fugir?

– Porque eu queria viajar.

– Você sabe onde está?

– Não, eu não queria. Eu só queria viajar.

– Você precisa conversar comigo. Eu sou a única pessoa que pode te entender.

– Estou numa casa.

– O quê?

– Não é verdade.

– O que não é verdade?

– Estou numa casa.

– Aqui é uma casa?

– Você não é a única pessoa que pode me entender.

– Pode ser que eu seja. Responda quando eu fizer a pergunta.

– Aqui é uma casa onde moram várias pessoas.

– Responda depois da pergunta. Imediatamente depois.

No dia em que chegou:

– Sabe porque ela está aqui?

– Acho que fugiu de casa.

– Para ir para onde?

– Talvez Europa.

– Eu já fui lá.

– É?

– Acho que sim.

Primeira semana.

Desenha nomes nos azulejos úmidos de vapor. Conversa com as pessoas, tenta saber quem são. Não chora.

Primeira noite.

Veste o cobertor por cima dos pijamas como se fosse um casaco e caminha na ponta dos pés descalços. Quem avisa os enfermeiros é o vigia que assiste a tudo pelos monitores. Antes de avisar alguém deixa que ela caminhe por muito tempo e só decide incomodar as enfermeiras depois de observar longamente aqueles pés sutis.

Ela se recusa a ir com os enfermeiros, mas não muda o tom de voz, baixo, e não chora. Sai de um quarto um homem e pede a mulher que siga as enfermeiras. O tom de sua voz é confiante, não é paternal, não quer ajudar. Quer apenas voltar a dormir. Ela faz o que ele pede. Sabe que não tem nem o direito nem o dever de impedir o sono de ninguém.

Segunda entrevista.

– Por que os outros estão aqui?

– Que outros?

– As outras pessoas, dos outros quartos em volta do meu?

– Você tem um quarto?

– E um banheiro.

– E as pessoas moram em volta do seu “quarto”?

– Moram ou dormem.

– Disseram-me que você anda a noite. Dormindo ou acordada?

– Como assim?

– Você anda dormindo ou acordada?

– Quando?

– Quando você anda de noite você está dormindo ou acordada?

– E você, quando anda a noite está dormindo ou acordado?

– Eu fiz a pergunta para você. Responda.

– Mas não é obvio?

– Não. Para se chegar a qualquer verdade é preciso pelo menos duas opiniões iguais. A enfermeira acha que você estava acordada, eu acho que você estava dormindo. Quero saber de você.

– Não consigo responder.

Segundo dia.

Desenha na janela, em mais de uma. Expira nos vidros e faz traços com os dedos, e com a ponta do nariz. Ninguém percebe, com a exceção da faxineira que acha tudo muito bonito, mas não sabe quem fez ou porquê. Também não tem tempo nem coragem de investigar. Já viu muita coisa assim e contenta-se em contemplar calada e sozinha tudo que existe de bizarro.

Terceiro dia.

“Recebi um bilhete que dizia: Eu já fui para a Europa. Foi você quem escreveu?”

Quarto dia.

O cesto onde encontrou o bilhete está vazio. Alguém levou sua pergunta. Decide esperar sentada, mesmo estando nervosa. Senta e começa a ouvir, não tem nada para ler.

Quinto dia.

Lembra dos filmes que viu. Dos casais que se amavam.

Terceira entrevista.

– Como você esta se sentindo?

– Não muito mal.

– Sente saudades?

– Muita.

– Do quê?

– De tudo.

– Tente ser mais precisa.

Quinto dia.

Outro bilhete:

“Sim, fui eu que escrevi. Eu já estive na Europa.”

Terceira entrevista.

– Saudades de tudo, do céu, do barulho.

– E das pessoas?

– As pessoas estão aqui.

– Sua família?

– Algumas, nem sempre as mesmas.

– Não sente falta das suas coisas?

– Sinto falta de tudo.

Sexto dia.

Embrulha-se num lençol. Veste o lençol como se este fosse um quimono e permanece sentada em uma cadeira.

Sétimo dia.

Escreve uma resposta ao bilhete.

“Onde você esteve?”

Quarta entrevista.

– Você está aqui há muito tempo?

– Eu já estava aqui antes de você chegar.

– Eu fiz um amigo.

– E você sabe quem é?

– Sei.

Décimo segundo dia.

Outro bilhete.

“Eu pisei do outro lado do mar”.

Ela pensa: Então, você nunca saiu daqui.

Oitavo dia.

Andando pela sala vê uma mesa vazia. Senta-se para olhar o céu. Chega uma mulher e lhe conta que operou os seios. Não precisa ouvir dela, já sabe que a outra foi traída pelo marido enquanto convalescia. Talvez ele tenha tido um caso com a empregada ou mesmo com a secretária, algo assim conveniente. E devem ter se encontrado várias vezes no final da tarde enquanto a mulher estava no hospital. Ele deve ter sentido um fio de culpa toda a manhã quando visitava a esposa. Mas pensava todo o tempo que lhe compreenderiam, afinal o pobre era marido de uma louca sem seios.

Um outro dia.

Outro bilhete.

“Comprei a passagem agora eu vou.”

Mais uma entrevista.

– Eu vou viajar.

– Vai?

– Vou.

– Bom. Você viu o céu ontem a noite?

– Acho que sim.

– Percebeu a cor?

– Por quê?

– Era azul, azul. Azul da Prússia.

– Azul da Prússia?

– É, esse azul é feito de sangue.

– Como?

– Sangue queimado até secar.

Trigésimo sexto dia.

Anda de chinelos que fazem barulho. Os chinelos são verdes.

Escuta pessoas falando de um homem que desde criança é mantido preso numa jaula embaixo da escada. Toda a vida foi alimentado através das barras de sua cela. Tomava banho de esguicho e nunca no chuveiro. Determinado dia furou o próprio pênis com o arame de um cabide e por isso sua urina não saia mais por onde seria o natural, mas pelo furo que ele próprio causara. Semelhante ao que acontece nos desenhos animados quando um personagem leva um tiro e depois bebe alguma coisa e o liquido sai pelos buracos das balas.

Resposta ao bilhete.

“Talvez você não vá”.

Resposta à resposta.

“Você quer que eu fique?”.

Quadragésimo terceiro dia.

Adoece. Fica o dia inteiro deitada assistindo tv. Nada interessa. E nenhuma conversa é envolvente.

No dia seguinte.

Escreve:

“Você têm um lápis? Uma caneta?”.

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