Gabinete Ansiedade, Oficina Cultural Oswald de Andrade, 2019

Apresentação

A exposição “Gabinete Ansiedade” cria um espaço inundado de imagens, um gabinete como  um lugar de reflexão sobre a produção de lembranças e afetos. São mostrados nas paredes e espalhados em mesas, dois conjuntos de imagem, conjuntos de uma coleção, “Aquivos O.” que venho produzindo desde 2009, são “Ansiedade” e “Você”. Juntos eles possuem cerca de 4000 imagens, entre impressos, estampas, pinturas, desenhos, fotos e pequenos objetos. O material estará justaposto, sobreposto, e empilhado.  As mesas formam um mapa e a parede fornece as legendas.

A exposição teve curadoria de Galciani Neves, que assina o texto a baixo:

 

gabinete ansiedade

 

I

 

Fechar, conter, proteger – instintos do corpo, manifestações naturais para acionar mecanismos de luta ou disparar estratégias de fuga em situações de risco – se deterioraram. Excesso de controle e incapacidade de resistir aos estímulos opressivos sem colapsar desenham a condição do “animal laborans”, um sujeito hiper individualizado, que pode ser qualquer coisa, menos o ser amortecido, vítima de uma passividade forçada, como anunciou Hannah Arendt. Na sociedade do desempenho, o sujeito vive a ilusão de liberdade cuja coerção o faz acreditar que a hiperatividade o torna mais livre. A exclusão, a ansiedade e o cansaço são os combustíveis deste corpo solitário, neurótico, competitivo.

 

No contexto da expansão e consolidação da cultura da imagem, do espetáculo, da performatividade ultra-bem-sucedida dos corpos e dos modos de vida compatíveis com este ritmo frenético, viver tem um tempo do impacto imediato. Quando tudo dura pouco, as atividades são muitas, incessantes, e os bloqueios aos afetos garantem a impermeabilidade do corpo. Para o filósofo português José Gil, em Portugal, hoje – o medo de existir (2004), circulamos por entre pequenas coisas e por tudo que encontramos a nosso dispor ou constituímos por prazer. Temos a possibilidade de investir e, em pouco tempo, desistir; selecionamos, nos conectamos e logo a seguir nos desconectamos de relações, tarefas, pessoas, desejos, o que dá “a ilusão de movimento, de liberdade, de um desejar diverso, rico, múltiplo. (…) Movimento realmente ilusório, pois esse saltitar de uma pequena coisa para outra não faz senão escamotear o sentido de uma inscrição que prolonga outra inscrição”.

 

Como reação aos agenciamentos intrusivos, ao imperativo do espetáculo, à indiferença diante dx outrx: abrir o corpo à porosidade com o mundo, num espaço/tempo de comunicação, pode fortalecer esse trânsito dentro/fora, pode contribuir para construir entre nós uma superfície erotizada e intensa de experiências visíveis, duradouras, que nos afetam a todxs. “Atenção/Tudo é perigoso/Tudo é divino e maravilhoso”*. Essa pode ser a aposta dos encontros e dos afetos viabilizados pela arte, pela cultura, pela potência de estarmos juntxs, por essa ativação da porosidade do corpo quando em contatos mediados com/por outros corpos.

 

* Em 1968, Gal Costa cantou de maneira “explosiva” – como ela própria colocou – e afrontosa os versos de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

 

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II

Aqui tudo tem. Tudo pousa. As lembranças que você guardou nas prateleiras, nas gavetas, embaixo da cama. Aquilo que você esqueceu e te olha escondido, te intimidando. Aquilo que não te impressiona mais. Aquilo que não estava disponível a mais ninguém. Aquilo que já foi indispensável. O que já se tornou necessário novamente. O que você escreveu e perdeu. Aquilo que nunca foi pensado. O que você superou e te apareceu no colo como um susto. Aquilo que você daria importância se tivesse outras vidas. O que você veria sempre que tivesse mais tempo. O que você esqueceria sempre, mesmo em outras vidas. O que teima em aparecer, mesmo depois de ter sido amordaçado. O que foi queimado. O que foi rejeitado. O que você não pretende fazer ou acessar. O que você roubou e nunca usou. Todas as coisas que você tentou fazer e deram errado. Todas as coisas que te ocupam a cabeça, mas são impossíveis de solucionar. Todas as coisas citadas, anotadas, inscritas. Todas as coisas que você selecionou para organizar do lado de outras coisas. Todas as coisas que sobrevivem e te inspiram curiosidade. Todas as coisas que sobrevivem e te inspiram repulsa. Todas as coisas que você não entende e teima em entender. Todas as coisas atraentes e que você já deveria ter ultrapassado. Todas as coisas que você repete. Que você já fez há muito tempo. Que você segue querendo fazer. Que você decidiu não fazer jamais. Que você não sabe por que faz, mas vai fazer novamente. Está tudo aqui. E você convive, folheia, encara. Você sentou à sua mesa de trabalho. E dispôs tudo à sua vista. Sentiu-se pronta. Conversou com uma amiga invisível. A sua voz chegou até ela. E aí, tudo está aqui. Está tudo dividido, arquivado, sobreposto. Você contou todas as histórias que lembrou, todos os motivos que inventou. Nunca se sabe, pode vir outra chuva e pode ser que tudo seja destruído. Seria bom, você pensa. Inaugurar e abrir espaços. Mas está tudo aqui. O desconhecido, as emboscadas, o misterioso, o impossível, o que ainda nem veio. Tudo o que pode começar. Tudo que ainda não acabou.

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III

Em uma pedra encontram-se princípio e fim, como um documento geológico, aparentemente parado, mas está em transformação.

*

Uma mulher fez uma mapa no formato das trompas de falópio.

*

Sabendo que é impossível, daqui, então, partiremos.

 

IV

No combate entre você e o mundo, prefira o mundo.

V

 

The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders Who Was Born In Newgate, and During a Life of Continu’d Variety For Threescore Years, Besides Her Childhood, Was Twelve Year a Whore, Five Times a Wife [Whereof Once To Her Own Brother], Twelve Year a Thief, Eight Year a Transported Felon In Virginia, At Last Grew Rich, Liv’d Honest, and Died a Penitent. Written from her own Memorandums (1722).

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VI

 

Durante um jantar, os guardanapos, os talheres, o lugar dos convidados, os rituais da mesa, as conversas e o serviço, tudo isso cria ao mesmo tempo proximidade e distância; está junto, mas de uma maneira que confirma a diferença e a hierarquia. Coincidentia oppositorum. É isso que faz do jantar, como observa um comentarista especializado do fenômeno culinário, um ato social fundamental na medida em que proporciona aos seus participantes uma experiência impressionante das relações sociais, fixando solidamente a coesão, mas fazendo, momentaneamente, desaparecerem os limites e os desníveis…

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VII

Circular entre imagens é possível pelos discursos da ciência, da técnica, da arte e, sobretudo, da política. Essa circulação se dá pelos mapas e discursos da história em vias de superação. As imagens sugam estes ordenamentos e produzem cenas.

 

VIII

Quanto mais fundo o cadáver for enterrado, mais lenta será a deterioração. Entre 60 centímetros e 1 metro de profundidade, o processo pode levar entre 9 e 12 meses. Os ossos somem depois de aproximadamente 4 anos.

IX

 

(…) tirando partido da própria terra, Butades, um oleiro de Sicyon, foi o primeiro a fazer a modelagem de retratos em argila. Isto teria acontecido graças a sua filha, cujo nome se perdeu no tempo. Sabendo que seu amante partiria em uma viagem com poucas chances de retorno, reparou na sombra dele. Pegou um carvão e com cuidado contornou a sombra, marcando um lugar. Seu pai, vendo o traço, prensou o barro sobre a marca. Fez um relevo e o queimou com o restante da sua cerâmica. Dizem que este retrato foi preservado no Santuário das Ninfas até que este fosse saqueado.

 

X

Este é um desenho gostoso. Aqui transformei textos em cacos de letras. Tem resto de tudo: entrelinha, parágrafo, tipografia, margem. Agora está tudo trancafiado. Categorizei as celas. E ainda que alguém procure algo minuciosamente, só vai se deparar com escombros.

Número de tombo: 1996.152

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XI

 

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Onde ronda nosso herói é um dos lugares que mais sofre com problemas de enchentes e inundações. E no ano de 2017 foi registrada a pior tragédia. Uma das principais fontes de informação do fato é uma carta de nosso herói, considerado um quase fundador da comunidade atingida. Nesse documento ele relatou que em menos de 36 horas o principal rio, que abastece as casas que ele construiu, subiu a uma altura, contabilizada com suas próprias mãos, de mais de 77 palmos do nível normal.

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