Afasia

 Foi por volta de maio de 2020 nos primeiros meses da pandemia que transferi o ateliê para minha casa. Esta transformada de todas as formas possíveis em lugar de trabalho, acolheu os arquivos de O.. Em residência forçada organizei o espaço e iniciei os trabalhos Afasia e Constelações.  Foi e está sendo um tempo de introspecção e elaboração, porque tempo e espaço se tornam estranhos. Um tempo de silêncio que me levou a investigar a pasta Afasia dos arquivos de O., que guarda imagens de animais empalhados e teatros vazios. Foi ali que encontrei a foto do urso empalhado, que fotografei em Londres, no Museu de História Natural. Essa mesma rubrica do arquivo me levou a visitar a instituição com a intenção de fotografar os animais de ua coleção e obter espécimes para o arquivo. O urso chama a atenção dos visitantes por estar em posição de ataque e ter cerca de 1,90mts de altura. Ele está congelado nessa posição, com a bocarra aberta a pata paralisada em um gesto que deveria nos acertar. Sua foto me pareceu a própria imagem da afasia. Pausado em um momento querendo reagir sem poder. Precisei tomar a imagem para mim desenhando-a, várias vezes, me aproximando cada vez mais.

Para dar conta dessa aproximação ao problema pesquisei de textos de psicologia e neurologia. Encontrei “Sobre a concepção das afasias: um estudo crítico” de Sigmund Freud, um texto de 1891, o primeiro trabalho de relevância em sua carreira antes de se tornar o “pai da psicanálise”. O gráfico inscrito nas folhas veio deste livro e ilustra a impossibilidade de comunicação entre as partes do cérebro o que causa a afasia. Sob essa condição o individuo não consegue se comunicar. O sujeito pode não elaborar os estímulos externos como informações, ou pode até conseguir elabora-los, mas não consegue transformar a informação em resposta. Se lhe perguntam seu nome, pode não entender a pergunta, o som não forma sentido pra ele. Se ele entende a pergunta pode não saber o seu nome, não encontra essa informação. Ou pode saber seu nome mas não consegue dizer em voz alta, não consegue produzir estímulo que para acionar o aparelho vocal, ou ainda pode conseguir falar, mas pronuncia uma palavra sem sentido.

Afasia (típtico), 2020

Nanquim sobre papel

70 X 50 cm cada

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