Constelações

Gradiente

Os desenhos de Constelações são feitos de encontros entre matérias. As imagens sobrepostas às são documentos sobre experiências coletados ao longo dos anos. Podem ser uma foto de viagem, ou uma comprada numa feira de antiguidades, um postal, um desenho, uma página de um livro herdado, a página de um caderno, uma gravura. As páginas onde os objetos acima descritos são justapostos também são da mesma natureza destes. A imagens se formam de encontros em um dado território. Esse território é o elemento comum a todas, um desenho, seja suporte ou sobreposição, feito pelas técnicas suminagachi e ebru. Ambas as técnicas de desenho/pintura utilizam o meio aquoso, uma bacia cheia de água ou solução de cola cmc, para receber a tinta. Esta é respingada nesse meio ficando suspensa na tensão superficial do líquido. O papel é colocado por cima da superfície tocando-a levemente para retirar a tinta. Como em uma monotipia essa matriz fluida imprime um desenho no papel. Existe aqui uma tensão entre controle e descontrole, o desenhista intui o resultado, mas não o controla inteiramente. Há uma abertura para o que pode acontecer. Neste caso em particular abracei a experiência com esses procedimentos e recolhi tudo o que dele surgiu, todas as imagens com falhas, feias e até aquelas em que o papel se partiu. Era importante guardar os documentos de produção do território. Os papeis submetidos a este processo eram os que já vinha guardando a tempos, papeis italianos e japoneses, papeis canson esquecidos nas gavetas e um livro com o qual vinha flertando a algum tempo, um livro de fisiologia comprado em uma venda de garagem. O papel é superfície, pele. Era imprescindível para mim adicionar um elemento que se referisse ao corpo neste trabalho, o corpo que sofre e expressa afetações, por isso a escolha deste volume em particular, que para a minha sorte acolheu muito bem o desenho de Suminagachi. Em constelações esses desenhos formam o território onde os afetos se realizam.

Para esta atualização/encarnação dos Arquivos de O.  em Constelações o critério de organização é tomado de empréstimo do Atlas du Pays de Tendre, mapa inserido no romance Clélie de Madaleine Scudery publicado em 1654. Um mapa sobre o território dos afetos que Clélie irá aprender a transitar durante sua vida. Estão desenhados no mapa montanhas, lagos, rios, cidades e vilas, descritos como situações, sentimentos gerais, ou específicos por alguém, que a personagem sente, irá sentir ou será afetada por. Um mapa que é registro e guia. O meu atlas de afetações é mais celeste que terrestre, não descreve o que foi, é ou será, mas cada página, ainda que registro, passa a ser um guia para situações ainda desconhecidas. Assim os conjuntos de imagens são constelações, que nomeio pelas rúbricas de Mda. Scudery, que agora em 2021 podem soar anacrônicas e obsoletas, e por isso capazes de se emprenharem de significados impensados. A similaridade entre as imagens determina a qual constelação ela pertence. Constelações no sentido de conjuntos quase arbitrários com os de Benjamin em Passagens ou os de Warburg no seu atlas Mnemoysine. Constelações de afetos, documentam afetações, não apenas de minha experiência, mas afetações entre imagens, documentam afetações entre narrativas..