Fantasmas

Fantasmas, exposição individual apresentada entre outubro de 2017 e março de 2018 no CCSP.IMG_4070

Fantasmas é um diálogo entre 3 trabalhos, “Cenas Íntimas”, “Habitações” e “Consciência”.  Os dois primeiros pertencem a mesma série “Arquivos de O.”, são células de uma coleção maior em andamento. São conjuntos que recolhem imagens entendendo que estas são formas materiais de memória. Memórias só existem quando podem ser compartilhadas, e portanto materializadas; o corpo de cada um é matéria para a memória. Toda imagem possui corpo, o corpo daquilo ou de quem retém a imagem. São duas pastas AZ contendo cerca de 120 objetos cada, entre desenho, gravuras, livros, fotografias, pinturas executadas ou recolhidas durante as últimas duas décadas, embaladas em plásticos. Elas deverão ser expostas dentro dos sacos plásticos nas paredes formando dois painéis de 3 x 3,6 mts. Texto, livro, narrativas, criam e multiplicam memórias, o terceiro trabalho a participar do diálogo com “Cenas Intimas” e “Habitações” é “Consciência”. Este último é composto de 60 objetos feitos com as páginas do livro de Stefen Zweig, “Uma consciência contra a violência”, a biografia de João  Calvino. Se o livro propunha na leitura página a página, uma narrativa completa sobre um homem, propus uma outra leitura para tornar cada folha individual, um objeto autônomo. Para fazer isso descosturei o livro e estabeleci como regra que eu poderia dobrar, cortar, colar com fita durex, e até imprimir sobre as páginas, mas não poderia retirar nada delas. A leitura aconteceu em atos de violência, arrancar as folhas do livro, cortando, dobrando, amassando e desfigurando-as. O resultado da individualização das folhas gerou objetos quase orgânicos, meio animais, com vontade própria. Alguns habitam as paredes, outros o chão. E todos são delicados, e irão se perder durante a exposição. Os objetos de chão deverão se espalhar por todas as áreas do CCSP no dia da abertura, e estarão destinados ao desaparecimento, ficando apenas documentados, enquanto que os objetos de parede estarão próximos aos painéis de “Cenas Íntimas” e “Habitações”.

Livros, textos, fotos, gravuras, desenhos, impressos em geral, todos no mesmo suporte, o papel. O papel permitiu a evolução das técnicas de reprodução da imagem responsáveis por aumentar a capacidade humana de compartilhar memórias coletivas e individuais, criando identidades e estranhamentos entre tempos e espaços. Colonizadores impondo sua história através destes meios, colonizados antropofagizando a violência, consciente e inconsciente coletivos construindo subjetividades e transmitindo fantasmas.

Os trabalhos apresentados aqui são aparições, imagens recolhidas, traduzidas, transmitidas e transmissíveis, morrem e revivem quando necessário. O diálogo entre elas é provocado por ausências. Os plásticos que contêm as imagens não nos permitem vê-las em sua integridade, criam resistência, provocam aparições. As páginas cortadas, as páginas objetos, permitem apenas leituras parciais do texto de Zweig, e sua fragilidade as expõe à entropia acelerada.

Este é um diálogo em tensão, entre oscilações de sentido, um intervalo ou suspensão, em que o sentido prévio e um novo não se resolvem ou se anulam.